doenças psicológicas/mitologia

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN (2011)

Recentemente, li o Fédon do Platão, livro onde o filósofo utiliza as últimas horas de Precisamos Falar Sobre Kevinvida e diálogos de seu mestre, Sócrates, para desenvolver suas próprias teorias sobre a imortalidade da alma e transcendência. A  leitura é pesada, ocasionalmente maçante e não foram poucas as vezes que eu permiti-me discordar dos raciocínios desenvolvidos (entre outras coisas, Platão utiliza analogias para “provar” temas como reencarnação :S), mas há ali uma discussão sobre essência e “verdade” que me agradou bastante. Tentarei, sem estender-me demais no assunto, explicar o que eu entendi dessa teoria e como isso aplica-se a questão da maldade absoluta que Precisamos Falar Sobre Kevin aborda.

Antes de tirar a própria vida bebendo cicuta, Sócrates utilizou o exemplo do número 3 para convencer seus discípulos de que algumas idéias são absolutas e eternas enquanto outras, apesar de remeterem as mesma idéias, permitem variações e relativizações. O 3 seria uma idéia fechada em si mesma, inquestionável enquanto representante do conceito da trindade. O “ímpar”, por sua vez, pode ser associado ao três, mas não podemos dizer que o 3 É ímpar, uma vez que esta é apenas uma de suas CARACTERÍSTICAS e não a sua essência, já que essa mesma divisão/classificação/CARACTERÍSTICA também aplica-se ao 1, 5, 7, etc e, portanto, não configura unidade.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 4

Dito isso, vamos a questão da maldade. O desenvolvimento das ciências humanas nos últimos séculos contribuiu significativamente para flexibilizar certas questões morais que, em determinados períodos da história, foram analisados (e julgados)  através da dicotomia bem/mal. O dinheiro, é claro, financiou a construção do meio tom chamado purgatório durante a Idade Média mas, no geral, o moralismo católico daquela época oferecia o céu com uma mão e o inferno com a outra. Atualmente, o mundo já não é mais tão preto e branco assim e, não raramente, vemos pessoas defendendo assassinos e assaltantes argumentando que eles são resultados do meio pobre e violento onde nasceram (o estereótipo frequente é o morador da favela filho de um traficante com uma prostituta) e que, portanto, não podem ser classificados ou julgados da mesma forma que alguém nascido em berço de ouro ou, para atualizar o termo, como um “filhinho de papai”.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 3

Mesmo reconhecendo que o meio influencia, mas não determina, o conceito de livre arbítrio cambaleia frente à luta pela sobrevivência. O mal saiu do colo do capeta para transformar-se na sujeira que Deus varreu para debaixo do tapete após um trabalho feito nas coxas. Desse ponto de vista relativizado, o assassinato cometido pelo “favelado filho de/da puta” está para a maldade assim como o ímpar está para o 3, ou seja, é sim algo que pode ser caracterizado como “errado” (considerando que bem=certo e mal=errado) mas que não é errado em absoluto. Saber que há um “motivo” por trás de um ato de crueldade não diminui nossa indignação nem justifica a ação, mas nos tranquiliza, de certa forma, porque a explicação nos fornece uma sensação de que há uma certa lógica no mundo, algo que podemos controlar e, quem sabe, mudar. Precisamos Falar Sobre Kevin é um pouco mais “conservador” sobre essa questão e, com uma história verdadeiramente desoladora, parece sugerir que esse controle que julgamos ter sobre a maldade não passa de mera ilusão devido ao fato de que, tal qual o 3, às vezes ela aparece em sua forma absoluta e inflexível. Isso dá medo, muito medo.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena

Eva (Tilda Swinton) é uma mulher comum, que transa com um cara comum (Franklin, interpretado pelo John C. Reilly) em uma situação comum (pós-festa, embriaguês, foda-se a camisinha). O trivial dá mais um passo à frente quando ela descobre-se grávida e casada com Franklin. Kevin (Jasper Newell/ Ezra Miller), o resultado visto após o nono mês, é tão fruto do capeta quanto músicas de axé com refrões demonicamente pegajosos.

Agora vai uma analogia do tipo Platão: Se você está lendo isso, você está vivo e, se você está vivo, você já presenciou alguma criança dando birra. Confessemos, juntos: a nossa primeira reação SEMPRE é atribuir a culpa aos pais. CLARO que aquela coisinha linda guti-guti está chorando e esperneando devido a alguma coisa que o pai fez ou, na maioria dos casos, deixou de fazer, como comprar um doce, fazer uma brincadeira ou, principalmente, educar corretamente. Bater, então, é assinar atestado de incompetência e reservar com antecedência um lugar no inferno. Não será eu quem dirá que quem pensa assim está errado, mas aqui, nesse filme da diretora Lynne Ramsay, adaptação do livro escrito pelo Lionel Shriver, encontramos argumentos assustadores para acreditarmos que nem sempre a culpa é dos pais.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 6

Kevin simplesmente odeia a mãe. E quando eu digo odeio, eu não estou me referindo a fazer beicinhos e coisas do tipo. Tendo desenvolvido precocemente um raciocínio aguçado, o garoto pragueja contra sua progenitora, manipula o pai contra ela e faz de tudo, inclusive cagar propositalmente na fralda que acabara de ser trocada, para irritar e testar os limites de Eva.

A narrativa em Precisamos Falar Sobre Kevin não é linear, o que significa que passado e presente alternam-se na tela constantemente para lançar questões e problemas que só serão respondidos após longos e reveladores flashbacks. A Eva das primeiras cenas, uma mulher psicologicamente destruída, por exemplo, não lembra em nada a personagem vigorosa, paciente e racional que vai para a cama com Franklin em uma cena posterior. Essa quebra cronológica, engenhosa e muito bem executada, coloca-nos uma questão que remete as divagações do início do texto: O que Eva fez com o filho para que ele se comportasse daquela maneira? O assustador aqui é que, quando as peças do quebra-cabeças vão sendo colocadas em seus devidos lugares, a história revela apenas os motivos da decadência da sanidade mental da personagem, que enfrentou uma luta inglória contra um adversário que nunca poderia ser vencido.

kinopoisk.ru

O mito grego diz que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, cedeu a curiosidade e, contrariando um conselho, abriu uma caixa e espalhou o mal pelo mundo. Da mesma forma, Eva (coincidência ou não), o nome da primeira mulher da teologia cristã e da personagem desse filme, tentada pela serpente (sem camisinha rs) acaba sendo a responsável por trazer o mundo a sementinha do mal chamada Kevin. Podemos atribuir o comportamento do garoto a problemas psicológicos? Sim, já que desde pequeno ele apresenta características psicopatas (matar animais, etc) que, de certa forma, adiantam no imaginário do espectador àquela ação macabra que ele comete no último ato. Podemos sim tentar entender e relativizar a maldade do personagem mas, pessoalmente, eu o vi como a expressão absoluta do mal, algo que não poderia ser mudado de forma alguma, algo que precisa ser reconhecido como tal e, como o título convida, algo sobre o qual precisamos conversar, por mais que dê medo olhar diretamente nos olhos do caramunhão.

Como essas divagações já denunciam que eu adorei o filme e recomendo-o fortemente, acrescento para fechar que esse Ezra Miller é um ator que merece ser observado de perto. A caracterização sofisticada e cínica que ele imprime ao personagem e o ótimo trabalho que ele realizou como o purpurinado Patrick no As Vantagens de Ser Invisívelsugerem que estamos diante do início de uma carreira promissora.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 2

fonte: Já viu esse?

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